segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Diário de um acidente...

por Tessy Hernandez

Quem não desejaria parar o tempo num estralar de dedos e tomar controle da situação? Bem, as vezes nem tudo tem solução de cinema...

Tão normal após um acidente, (no caso em questão, de carro) em que você poderia não estar relatando essas palavras por não estar mais vivo...é refletir sobre a vida e ela ganhar uma dimensão difícil de ser descrita. O momento assemelha-se a uma cena cinematográfica... a visão dos faróis do carro se aproximando (o acidente ocorreu à noite), o momento da mente processando o que vai acontecer, mas procurando aquilo que seria um último pensamento, o corpo sem reação tomado pelo medo.... e de repente, um som assustador (que seria o momento da batida) que te deixa confuso e faz perder a noção do que está acontecendo...talvez apenas seu grito seja algo que lhe dê a consciência de que ainda está vivo e a motivação necessária para se defender. Tudo isso numa fração de segundo. E nessa fração pessoas, momentos, tudo vem à mente confusa pelo susto. É nesse momento.. o tempo está parado...um silêncio angustiante, nada acontece.....
Você então sai lentamente do estado de "hipnose" e lembra de respirar...o sentimento?.. ter nascido de novo. Vem a pergunta: "Meu Deus (acho que até sendo ateu), o que aconteceu? o que está acontecendo...?" Não há dor...apenas sua lógica tentando entender o que se passa...Com os olhos bem abertos, você suspira...respira fundo......está vivo... Você chora, agradece, respira fundo novamente... a única e preciosa vida nunca esteve tão valiosa e "escorregadia" quanto nesses segundos... A dor aparece e se transforma em dores... mas você só se importa em pensar que está vivo... Você começa a pensar nas coisas que poderia nunca mais poder realizar... coisas que te tocam e inspiram....vc pensa nas pessoas que poderia nunca mais poder ver ou te ver outra vez, pessoas que te fazem uma pessoa melhor, aquelas que você daria a vida ou as que você tem significado e talvez nem saiba...Você pensa, e isso te dá a certeza de que poderá continuar existindo...mas agora as coisas estão diferentes, estranhas, sutilmente, mas perceptivelmente.....tão reais.  
Nos primeiros dias (no caso de ferimento leves, sem fraturas) o sono é prejudicado pelas dores musculares que se vão sem pressa e por flashes da cena do acidente que insistem em se projetar como uma cena marcante de um filme, nesse caso de terror. Um número de telefone, o asfalto, os carros em movimento, os faróis, o trânsito a noite...esse relato..fazem lembrar o acidente. Você prefere não estar só, você quer ver pessoas, principalmente aquelas pessoas...sim, aquelas pessoas que selecionaria caso tivesse de se despedir(ou pudesse..). Você quer ouvir essas pessoas, falar com elas, qualquer coisa...apenas sentir o prazer de ter a oportunidade de ouvi-las. O que antes era ignorado agora tem um valor...os abraços são mais apertados, os sorrisos mais alegres...dizer  "Te Amo, viu?" já não precisa de malabarismos... o que antes eram problemas enormes não passam de meros detalhes que se consertam... Observar mais vira um passatempo gostoso e nunca as batidas do coração chamaram tanta atenção... você se deleita com cada pulsar, e não se incomoda em passar horas  e horas sentindo-se assim...vivo. 


[Imaginarium]

O Riso e a Bobagem: Abrem-se as cortinas...

Alice Viveiro de Castro conta a história do palhaço de circo aolongo dos tempos; sua função social "sem disfarce algum" em sua obra O Elogio da Bobagem: palhaços no Brasil e no mundo. (2005) 

" O Homem é o único animal que ri, disse Aristóteles... e Millôr Fernandes complementou " O Homem é o único animal que ri e é rindo que ele mostra o animal que é".

 Cena 1: O Palhaço
Clown, grotesco, truão, bobo, excêntrico etc são alguns dos nomes usados em referência a essa figura "loucae comicidade pura" queé o palhaço. Ninguém tem dúvida quando se depara com uma figura dessas: "Este é um palhaço!" Nõa importa se sua cabeleira é vermelha e os sapatos enormes ou se , ao contrário, ele veste um sóbrio terno e está sem nenhuma maquiagem. Identificamos um palhaço não apenas pela forma, mas principalmente pela sua capacidade de nos colocar, como espectadores, num estado de suspensão e tensão que em segundos - sabemos de antemão- vai explodir em risos. Sua função social é fazer rir e dar prazer. É a sua incomparável função na sociedade. Enquanto milhões se dedicam às nobres tarefas de matar, apossar-se de territórios vizinhos e acumular riquezas, o pahaço empenha-se em provoca o riso de seus semelhantes...Ele não se decide às grandes questõs do espírito, nem às "altas proposopéias filosóficas" ... gasta seu tempo - e o nosso -  com..bobagens. O palhaço é o sacerdote da besteira, das inutilidades... Tudo o que não tem importância lhe interessa. E por mais bobo que possa ser, o palhaço acaba nos entretendo com algum detalhe absolutamente insignificante... e nos rendemos ao riso. 

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domingo, 23 de novembro de 2008

Cena 2: Os Bobos da Corte


Um costume que teve início no Oriente. Egípcios, chineses, hindus não dispensavam a figura do bobo, que na Idade Média divertia o senhor da corte e seus convidados. Comumente era um anão, um corcunda, ou uma não corcunda - na cabeça, um chapéu de pontas longas com guizos...Inúmeros bobos se destacaram pela dedicaçãoao seu senhor e pelo talento. Um bobo célebre foi Jehan-Antoine Lombart, o Brusquet à serviço de Henrique II de França. Certa vez o rei autoriza seu bobo a agir como juiz. "Conta-se que um comerciante foi se queixar ao juiz de um miserável mendigo que passava o dia na porta de seu estabelecimento, incomodando os fregueses e prejudicando os negócios. O juiz, que era ninguém mais do que Brusquet, o bobo do rei, manda chamar o miserável e pede que ele se explique. 
- Senhor juiz, fico ali roendo o meu pão duro.. o cheiro do pão quentinho me ajuda a conseguir engolir minha côdoa velha..., justifica-se o mendigo. 
- Pois que pague então pelo cheiro do pão!, retruca o insensível padeiro.
- Muito bem!, diz Brusquet. Ele deve pagar pelo cheiro do pão..!
E imediatamente manda colocar no bolso do pobre umas tantas moedas e diz:
-Sacode as moedas, meu bom amigo. Deixa elas tilintarem no seu bolso... Que o som do dinheiro pague o cheiro do pão..."
Mulheres também exerciam o ofício de bobo da corte. Uma das bobas mais famosas foi Mathurine, antiga cantineira do exército que vestia-se como um soldado e dizem que sabia brigar como um deles. Com uma linguagem de carroceiro, o que era sua graça, falava tudo o que os outros pensavam mas não tinham a coragem de expressar. 


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(...continua)

Cena 3: O Riso


"Rimos como se fôssemos dois:um que age e outro, que ao ver a estuídez e as bobagens deste um, que é ele mesmo, ri. (...) Rimos porque é bom e isso basta."

O riso pressupõe uma relação de cumplicidade e o conhecimento de inúmeras e sutis informações prévias. É possível rir em qualquer lugar: num velório, num batizado, dentro de uma cela de prisão...mas o riso só se instala quando faz sentido para um grupo. Um contador de piadas em fstinhas sabe que pode errar se não estiver muito atento ao ambiente. A mesma piada pode ser um sucesso ou se transformar na mais constrangedora gafe... Há um ditado que diz - não fale de corda na casa do enforcado, que exemplifica essa questão. Contar uma piada política ou histórica para quem não conhece os personagens ou não entende de política, nem de história é acabar tendo que explicar a piada....Ser obrigado a explicar a piada é das coisas mais se graça que pode acontecer a um cômico.. 
O riso é o resultado de complexas associações e conexões cerebrais, mesmo quando rimos de uma simples careta. Se rimos de alguém com a cara propositadamente deformada é porque nosso cérebro é capaz de de compará-la a um rosto harmonioso e podemos compreender e imaginar os movimentos necessários para chegar àquela deformação. Ela pode nos lembrar um animal ou alguém que conhecemos ou podemos ainda estar nos deliciando com a capacidade de transformação facial do outro. Bem, confessemos que nem toda careta leva ao riso...algumas são óbvias demais, outras estão sendo feitas em momento não apropriado.. É preciso uma grande conjunção de fatores para que possamos rir de "uma simples careta". A principal função do riso é nos recolocar diante da nossa mais pura essência: somos animais. 

"Nem deuses, nem semi-deuses...meras bestas tontas que comem, bebem, amam e lutam desesperadamente para sobreviver. A consciência disso é que nos faz únicos, isto é, humanos." 


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